Processos Públicos: Como você chegou às artes plásticas?
Camila Valones: A arte surge para mim em meados de 2007, quando comecei a trabalhar numa livraria. Lá eu trabalhei na seção dedicada às artes, e por inquietação, curiosidade, comecei a descobrir outros conteúdos ali guardados; aí surge meu interesse por arte. De algum modo eu me reconheci naquela linguagem, tudo que eu acessava se apresentava como coisa absolutamente possível.
P.P.: Você ainda não tem formação acadêmica, mas sim através de cursos livres e vivências com artistas. Isso aparece de alguma forma em seu trabalho?
C.V.: Certamente a possibilidade de iniciar minhas experimentações e estudos através do que me interessava, e não por um caminho dado, influenciou e influencia meus resultados. Sobretudo quando relacionado à minha vivência com artistas. Nessa relação, o que influencia de modo significativo é poder acompanhar os processos, a persistência, as burocracias. Encontrar no outro a angústia e a dúvida que encontro em mim. Reconhecer os estágios. Entender que duvidar é preciso, é manter-se vivo.
P.P.: Percebemos em seus trabalhos a presença dos convites para o espectador, sobretudo, convites à pausa. Como isso começou em sua poética?
C.V.: Ao convidar, em “Cor de lás”, transeuntes de determinados lugares a um momento de pausa, pretendo que, mesmo que breve, minimamente, esse outro possa perceber diferentemente o espaço que habita, e, assim, relacionar-se com ele de outro modo. Enquanto nos demais trabalhos, acredito que a presença do convite parte da natureza daquilo que proponho. A mim não interessa uma arte que abandona a plasticidade. O trabalho de arte mantém seu caráter contemplativo – mesmo que algo da contemplação tenha sido diluído, revisto nas noções de interação -, e, para mim, contemplar é sinônimo de pausa, de espaço no tempo.
P.P.: Sei que o registro de seus trabalhos é uma questão para você. Quais as problemáticas que você encontra?
C.V.: Não que seja exatamente uma problemática, na verdade. O que me interessa na questão do registro, é que a todos é possível imprimir um olhar, realizar um recorte, fazer escolhas sobre determinada paisagem que deseje registrar. Então, não me colocar como fotógrafa em alguns momentos, significa para mim que, quando apresento um trabalho, eu entendo o que pretendo através dele, quais são as motivações etc., entretanto, jamais poderei controlar como ele será recebido. Assim, acredito que considerar esse recorte do outro como parte do trabalho seja uma tentativa de somar essa recepção. O que também não anula a possibilidade de que eu mesma realize esse registro. Tudo depende de para onde caminha o trabalho e de como ele se apresenta.
P.P.: Pode citar artistas que a influenciam?
C.V.: Recebo estímulos de diversas linguagens que não só das artes visuais. Influenciam-me o modo como nos comportamos e reagimos ao outro e à cidade, nossas posturas e posicionamentos. Memórias. Cores e formas também. As relações que sigo restabelecendo com todos os lugares que habito, todo o tempo, isso, certamente, me influencia; muito mais do que um determinado artista.
P.P.: Pode nos contar um pouco sobre o trabalho que apresentará em Processos Públicos?
C.V.: Em Processos Públicos apresentarei dois trabalhos que tratam de tudo aquilo que apontei antes como coisa que me interessa. Em “Cor de lás”, ocupo com cata-ventos de feltro colorido locais de passagem, pretendendo, através desta instalação, convidar os que passam ao reconhecimento de um lugar que normalmente habitamos como corredor. Em “Circulador (Processo Público)”, – que apresentarei enquanto processo no Paço das Artes – vestes-círculo estarão disponíveis para que os visitantes possam usar e brincar. A partir dessa brincadeira, realizarei os registros que darão continuidade à série fotográfica; resultado do trabalho que será apresentado no Museu da Cultura – PUC.
(entrevista realizada por Laura Moritz)